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Curated by: Hotsake (1397 videos)
Um jovem casal, que se encontra numa festa de casamento, combina um encontro no final de semana, durante o qual se perdem em um cemitério; surpreendidos pela escuridão da noite, vagam pelos túmulos na tentativa de encontrar a saída, mas se tornam reféns do medo, do desespero e, por fim, da loucura. Jean Rollin foi um diretor e roteirista francês que contribuiu com o cinema dirigindo filmes no limite entre o terror e o erótico, conhecido principalmente por suas vampiras virgens possuídas pelo prazer. Contudo, embora tais elementos o tornaram conhecido e identificável no mundo cinematográfico, seu cinema não se reduz apenas à fórmula “vampiros e erotismo”. A verdadeira mudança ocorreu em 1973, quando Rollin decidiu dirigir um filme com maior profundidade psicológica e filosófica. Com uma jogada inteligente, mas também muito arriscada, investiu tudo no projeto que havia em mente, inicialmente concebido como um curta metragem, mesmo contra o parecer dos especialistas, que enxergavam o projeto como uma catástrofe anunciada. Para se garantir, o cineasta aceitou um trabalho de dois anos sucessivos com a produtora francesa Impex Films. Rollin, portanto, sacrificou dois anos de trabalho somente para dirigir este filme. Estamos falando de um de seus maiores feitos, La Rose de Fer (A Rosa de Ferro). A rosa em questão aparece já na primeira sequência do filme cuja trama obscura, no limite do hermético, pode ser resumida em algumas linhas: um jovem casal, que se encontra numa festa de casamento, combina um encontro no final de semana, durante o qual se perdem em um cemitério; surpreendidos pela escuridão da noite, vagam pelos túmulos na tentativa de encontrar a saída, mas se tornam reféns do medo, do desespero e, por fim, da loucura. A obra se concentra em apenas dois personagens, interpretados por Françoise Pascal e Hugues Quester, atores desconhecidos, mas que desempenham atuações bastante condizentes com o clima de angústia, traços surreais e a impressão, propositadamente causada de evoluir sempre em círculos sem nunca chegar a lugar algum. O casal percorre incessantemente o grande cemitério em plena madrugada, vagando entre estátuas e mausoléus, gerando uma sensação generalizada de mal estar que eficazmente repercute diretamente no espectador. Contudo, no final da sessão, se torna mais forte e evidente a ideia de que na realidade a garota é a protagonista do filme. Ela, que inicialmente parecia demasiadamente ingênua e até mesmo tola, quando dominada pela paranóia, adquire uma personalidade forte e muito distinta de sua primeira impressão: a aversão inicial pelo cemitério transforma-se em prazer e total adaptação ao local onde se encontra. A garota, que parecia assustada e desconfortável, passa a mostrar-se em um estado de transe, dançando entre os túmulos, sob o olhar de seu companheiro que, por sua vez, parece ter perdido a segurança e autoconfiança iniciais, exibindo agora, uma personalidade aturdida e desesperada. A dualidade é clara e uma das mais óbvias, ou seja: Amor e Morte, Eros e Tânato. Há uma série de referências bastante evidentes em relação ao amor em sentido carnal e como concepção de uma nova vida e a visão da morte como paz final. A morte, na obra, é mostrada exclusivamente como a dissolução da vida terrena, uma visão melancólica mas portadora de valores mais elevados e sublimes: a jovem protagonista se diverte, como uma jovem Eva ou uma Medusa da iconografia clássica, brincado com crânios e ossos. Sabemos que a contemplação da morte aqui não é uma mera apreciação, mas a causadora de uma tensão que chega em seu ápice como a libertação de todos os sofrimentos. Uma visão romântica, mas muito válida. De maneira similar ao seu último filme, La Masque de la Meduse (A Máscara da Medusa), La Rose de Fer não é um dos trabalhos mais (re)conhecidos de Rollin, tampouco um de seus mais característicos; porém é um dos poucos de sua filmografia que demonstram sua verdadeira capacidade em obras de grande profundidade, repletas de simbolismo e metáfora, sem utilizar-se de artifícios que fogem à essência da obra. Jean Rollin consegue, mascarando-o como um filme de terror de premissa simples, com sua abertura e epílogo com toques firmes e delicados, realizar um verdadeiro trabalho autoral e digno de muito respeito.